quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O que pode uma montagem?

"Montar ou editar consiste em escolher e justapor. Apenas isso. É uma operação simples, comum a toda linguagem. No cinema não é diferente. Quem se exprime por meio da linguagem cinematográfica seleciona e combina imagens e sons".


Estas são as frases que abrem o artigo (Des)importância da montagemde um dos maiores montadores da história do cinema praticado no Brasil, Eduardo Escorel. Ainda o problema da definição, mas de um ponto de vista mais rés-o-chão. O filme visto na primeira aula desta semana, Santiago, montado pelo mesmo Escorel, parece de certa forma contradizer na prática a intenção teórica de "relativizar o poder da montagem" buscada pelo autor do texto. Como sabemos, trata-se de um filme que foi abandonado na montagem e retomado treze anos depois, quase que inteiramente composto pelas imagens filmadas e pelos depoimentos captados inicialmente, porém montados sob um conceito bastante diverso daquele que as produziu, um novo conceito expresso explicitamente na narração (segundo Salles, proposta por Escorel) e na música adicionados posteriormente. Ou seja, é um filme nada simples, onde a montagem se mostra como determinante e não apenas condicionada pelas etapas anteriores. 



Santiago, de João Moreira Salles, montado por Eduardo Escorel


Não nos devemos esquecer que, em seu texto, o diretor-montador está se contrapondo a algumas teses professadas principalmente nos escritos de Eisenstein sobre o seu próprio trabalho no período do cinema silencioso e as de Orson Welles (também sobre seu próprio trabalho), que, sempre segundo os textos citados no artigo de Escorel, declarou que a "montagem não é um aspecto, é o aspecto" e que "é toda a eloqüência do cinema que se fabrica na sala de montagem". É uma tomada de posição contra quem acredita que a montagem é onipotente (o que parece ecoar uma constatação recorrente de quem trabalha profissionalmente com edição - como já foi o meu caso - a de que algumas vezes colocam sobre os ombros do montador toda a responsabilidade de solucionar problemas originados no roteiro ou na filmagem). A posição de cineastas como Tarkovski, no plano teórico e Sokurov, no prático, serve de base para Escorel contrapor diversos argumentos a essa noção, que dá a primazia para a montagem na constituição de um filme. Mais adiante no texto ele parece conceder que essa mentalidade se origina de uma concepção mais integrada da realização de um filme (com a qual comungo), tomando os procedimentos de montagem como presentes desde a concepção inicial do trabalho, elaboração do roteiro etc. 


O poder da montagem talvez seja um dos temas centrais de Santigo, que tem como subtítulo "uma reflexão sobre o material bruto". Se "material bruto" é algo que deve ser lapidado, é talvez uma operação mais profunda o que se faz em uma moviola, em uma ilha de edição ou, hoje em dia, em um computador quando empreendemos uma montagem. Em um debate sobre este filme, realizado em Belo Horizonte no Cine Humberto Mauro logo após sua exibição, o diretor esclareceu que hoje ele entende que o problema da primeira versão de Santiago é que ele tinha a pretensão de controlar tudo o que viesse de seu personagem, o gestual, as palavras ditas por ele, o modo como ele contava sua extraordinária história de vida, além dos elementos formais do filme. Por isso, como ele contou, acabou ficando com um material que nunca chegaria ä perfeição exigida, pois lidava com o fator humano. Se formos pensar na obra de Salles, podemos dizer, por exemplo, que uma vida é algo bem menos totalizável e controlável do que uma caracterização de um território ou de uma dita cultura nacional, como ele havia elaborado em China e América, os seus primeiros trabalhos documentais. 


Ele contou ainda que encontrar Eduardo Coutinho, de quem produziu todos os filmes desde Babilônia 2000, mudou a sua forma de pensar o cinema.  Salles aprendeu, por exemplo, que as palavras mais detestadas por Coutinho eram “perfeição” e “pureza”. A concepção de documentário que essas palavras expressam se materializaram no  enquadramento rigoroso e na tentativa de controlar tudo o que seria mostrado ao espectador em Santiago, o que amarrou e paralisou o trabalho posterior com aquele material. O pior talvez tenha sido o fato, admitido na própria narração, de que essa concepção original tenha impedido que o diretor se aproximasse realmente do personagem, que o ouvisse além do que já havia sido previamente pensado que ele poderia dizer.


O papel da narração foi determinante na nova concepção que norteou a versão final de Santiago, que no filme esclarece os motivos da retomada da produção e o que mudou entre o que foi iniciado em 1992 (quando praticamente não havia produção de cinema no Brasil, devido à extinção da Embrafilme, o que torna o seu abandono ainda mais carregado de  significados) e o que foi terminado em 2005 (aliás o paralelo entre este filme e Cabra marcado pra morrer, de Coutinho, como dois filmes retomados muitos anos depois sob concepções diferentes, pode também ser pensado e deve ser elaborado em outro texto). Uma concepção que dá valor aos trechos em que Santiago tentou escapar do controle exercido pelo cineasta, mesmo que isso exigisse mostrar apenas o áudio. Um detalhamento do processo pelo qual o material passou, contado pelo próprio cineasta, pode ser bastante esclarecedor sobre isso.



João Moreira Salles contou que voltou ao material bruto de Santiago porque passava por uma crise que chamou de existencial e que talvez trabalhar com o filme que ele não havia conseguido terminar poderia ajudá-lo a se curar. Começou tentando organizar segmentos  de filme possíveis. Tinha cinco horas de gravação com Santiago e mais algum material filmado na antiga casa da família Salles, onde ele havia passado a infância com os pais, irmãos e empregados, entre eles o mordomo. Paulatinamente, foram surgindo pequenas sequências, cada uma relativa a um aspecto do personagem Santiago e da relação entre ele e a família e entre ele e Joãozinho, como ele chamava o cineasta no set. Quando viu que tais segmentos poderiam ser articulados em um todo, Salles chamou Eduardo Escorel e a montadora Lívia Serpa e eles procuraram trabalhar com aquele material, totalizar um filme de alguma forma. Eles começaram a pensar em uma narração que pudesse trazer mais coerência, que Salles ia escrevendo em seu computador na própria ilha de edição, enquanto montava as imagens com Escorel. Aqui o diretor se deparou com alguns dos dogmas do chamado cinema direto, onde o som é sempre gravado em sincronia com a imagem, uma modalidade de cinema que geralmente não apresenta intervenções externas a esse conjunto audiovisual, como locuções e músicas pós-sincronizadas, ou seja, adicionadas na montagem.


Para o site Overmundo, ele declarou: "quis fazer um filme sem ortodoxia. Quem realmente disse que não pode colocar trilha? Se acho uma música bonita, por que não posso colocar? O filme não tem imposição. Vale tudo! Acabaram as regras". 


Escorel gravou uma primeira versão da narração que se ouve no filme, escrita em primeira pessoa por Salles. Depois o próprio cineasta, a pedido dos que já haviam tomado contato com o material, gravou novamente esse texto. Salles ainda experimentou gravar com o ator Fernando Alves Pinto (protagonista de Terra Estrangeira, filme de seu irmão Walter Salles com Daniela Thomas), voz que acabou por ficar nas versões internacionais. Achou a gravação de Pinto por demais distante e a sua por demais próxima das imagens e sons anteriormente captados. Enfim, o que ficou foi o que ele pensou ter sido um meio termo, uma narração de seu texto pela voz de Fernando, seu irmão, que havia vivido boa parte dos eventos documentados no filme, mas que introduzia "um grau a mais nessa questão de o que é verdadeiro e o que não é", para deixar o filme um pouco menos pessoal, apesar de usar a primeira pessoa várias vezes no texto. 


A narração se mostrou a principal responsável pelo novo caráter do filme, que reforça as relações assimétricas de poder entre ex-patrão e ex-empregado e faz uma reflexão sobre o poder do cinema (e da montagem) de criar uma nova realidade, ao constatar, por exemplo, que a piscina pode ter sido agitada por alguma mão fora-de-quadro ou que o boxeador que iria ilustrar uma das histórias de Santiago foi maquiado e molhado para simular suor e ampliar a carga dramática. Então a narração e as confissões que desvelam as entranhas do fazer documental estão relacionadas em uma mensagem que o diretor faz questão de explicitar: há que se ter uma desconfiança. E  é para o espectador que essa mensagem é dirigida. A possibilidade de controle dada ao cineasta pelo aparato cinematográfico deve ser objeto de questionamento. O poder da montagem é também o poder do cineasta de fazer-ver (e ouvir) e o modo como Salles o explicita é um lembrete para o espectador da frágil  posição em que se encontra, tema desenvolvido com profundidade nos artigos de Jean-Louis Comolli apresentados no livro "Ver e Poder" (Editora UFMG).

Ao final do texto, Escorel cita artigos tardios de Eisenstein que definem a montagem  como “princípio unificador [que] gera em todo filme, na mesma medida, tanto o conteúdo de cada fotograma quanto o conteúdo que é revelado através da justaposição desses fotogramas”, se indagando se essa seria uma forma de conciliar a posição do diretor de Ivan, o Terrível com a de Tarkovski. Escorel parece pretender chegar a um meio termo, mas talvez seja preciso examinar as circunstancias de cada produção, pois Santiago parece mostrar que a maturação de uma concepção de cinema, como aconteceu com Coutinho, também implica em uma transformação nas possibilidades da manipulação posterior do material filmado e gravado. 



Escorel encerra o artigo com a tese de que o "potencial expressivo máximo" de um filme seria único, ou seja, que haveria uma "solução correta" entre todas as possíveis, concordando com Tarkovski, segundo o qual, a montagem final seria "a variante ideal de uma colagem de planos contida a priori no material filmado". Apesar de ter afirmado, em entrevista para o catálogo do forum.doc, que "há filmes de ficção reinventados na sala de montagem", Escorel mantém sua posição nessa mesma entrevista, embora a relativize, ao definir que "montar seja um trabalho de decifrar um sentido que já está contido, ou, pelo menos, sugerido nas imagens e sons reunidos, sentido que, nem sempre, é evidente". Por isso ele conclui que não há diferenças significativas entre montar ficção e documentário.

Se formos pensar nos exercícios que fizemos em sala de aula, podemos pensar nessas questões de outra maneira?

Afinal, o que pode uma montagem?





12 comentários:

  1. Ai Leo, queria aproveitar esse tópico pra recomendar um documentário do Walter Salles - irmão do João Moreira Salles - chamado "Socorro Nobre". Se tem alguém da sala que ainda não viu, vale muito a pena. Acho até que a abordagem que o João Moreira Salles não conseguiu realizar em "Santiago" na primeira concepção do documentário foi muito bem trabalhada e sacada pelo Walter em "Socorro Nobre". Walter Salles percebeu que a liberdade dada aos "personagens" durante as filmagens e entrevistas traria mais naturalidade e verdade aos depoimentos.O espectador se emociona justamente porque não parece algo tão dirigido.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Quanto ao poder da montagem,acho que existe sim diferença entre a montagem de documentários e de filmes cinematográficos. "Geralmente" a montagem documental está a serviço de algo mais funcional e menos estético. Por exemplo, nos documentários de cunho científico (Discovery Channel, Animal Planet, etc) é pouco funcional montar de uma maneira inusitada e metafórica, uma vez que o foco é passar uma informação real e concreta. Infelizmente é um tipo de montagem consolidada, mas é possível sim dar outro tratamento a esses tipos de documentário, tudo depende do enfoque que se deseja dar.

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  4. João, valeu pelo comentário. Conheço o Socorro Nobre, realmente é um belo trabalho do Walter Salles. A própria Socorro também aparece no primeiro plano editado do filme "Central do Brasil", lendo uma de suas cartas, como se fosse uma missiva que estivesse ditando para a personagem encarnada pela Fernanda Montenegro. Ele foi realizado três anos depois da malograda primeira versão de Santiago e a fotografia também é de Walter Carvalho, por isso existem algumas semelhanças entre os enquadramentos. Tenho ele em VHS, teria que procurar aqui. Alías, quem quiser sugerir outros filmes para passar em sala é só dar o toque.

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  5. Como você notou sobre a diferença entre ficção e documentário, existem aqueles filmes ou vídeos documentais mais preocupados com a dimensão factual, mas depende muito do tipo de proposta do diretor. Por exemplo, nos documentários exibidos no Forum.doc, festival que vai acontecer de 19 a 29 de novembro, apresenta filmes que não seguem esse padrão "National Geographic", são menos factuais e mais atentos às sensações e à fala dos personagens. Realmente é difícil estabelecer fronteiras claras entre ficção e documentário em termos de montagem, pois a narratividade está presente em ambos.

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  6. Eu me lembro de um documentário genial sobre insetos chamado Microcosmo (de 96. Até, na época, o Fantástico passou alguns trechos dele).
    Ele fugia completamente do padrão National pois não tinha narração (só um pequeno texto inicial) e tinha uma montagem muito diferente com alguns planos longuíssimos, uma música bem eclética... Vi mais ou menos na época, mas algumas cenas (como a de uma libélula saindo do casulo ao som de ópera) me marcaram bem. Depois vi que o filme recebeu o prêmio da Comissão Técnica Superior de Cinema em Cannes e ganhou quatro César: trilha sonora, fotografia, som e montagem.
    Neste sentido, ele não se distingue (em montagem e outros aspectos) de filmes de ficção.
    Os filmes do Michael Moore, embora sejam documentários também tem uma montagem bem assemelhada a de ficção (com música, montagens paralelas, etc)

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  7. Estou com uma dúvida, na questão sonora na montagem. O som é todo planejado antes da montagem, certo? Ou isso é feito só após a filmagem, durante a montagem?

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  8. "Montar ou editar consiste em escolher e justapor". Certo? Se for, maravilha de texto. Estou começando a estudar Cinema e não sabia a diferença.

    Marco Freitas - freitas.aurelio@gmail.com

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  9. Quer dizer, não sabia que era a mesma coisa.

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  10. Tayla, somente agora vou poder responder a sua pergunta, lembrando sempre que as circunstâncias de produção variam muito, o que pode mudar o que escrevi. O ideal é que o elemento sonoro seja planejado desde a pré-produção e é isso que acontece nos trabalhos mais bem cuidados. De qualquer maneira, sempre acontecem modificações desse planejamento no decorrer das gravações, acarretando transformações na montagem. O cenário menos recomendável é aquele em que o realizador começa a pensar nos sons de seu filme apenas na etapa da montagem. Se é um exercício pode se justificar a opção por baixar efeitos sonoros e músicas de domínio público na Internet, mas o filme ganha muito mais qualidade quando há um trabalho de design sonoro e são produzidos sons exclusivos e próprios (voz, música e ruídos) para aquele trabalho específico.

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  11. Marco, "editar" é usado em relação ao vídeo e "montar" em relação ao cinema, isso quando tais meios se apresentam de modo realmente diferenciado. No campo da produção essa distinção é quase nula, mas na recepção existe uma diferença clara. Mas como a montagem está no âmbito da produção, pode-se dizer que sejam sim a mesma coisa.

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  12. Será que no decorrer do roteiro, o uso de montagem paralela de cenas em excesso pode atrapalhar o processo da produção

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